A Hasselblad divulgou resultados anuais que mostram receita recorde e lucro operacional em alta, dez anos depois de apostar em câmeras mirrorless de médio formato. A virada não veio de um único lançamento espetacular, mas de uma sequência que começou com a X2D 100C em 2022 e ganhou fôlego com a X2D II 100C em 2025.
Como a marca não é aberta na bolsa, os números chegam em relatórios corporativos das subsidiárias Victor Hasselblad AB, na Suécia, e Hasselblad Holding S.à r.l., no Luxemburgo. O site Photo Rumors compilou as cifras convertidas para dólares e o PetaPixel analisou a curva de 2020 a 2025. O quadro é claro: a aposta mirrorless deixou de ser experimento e virou motor de crescimento.
Os números compilados pelo Photo Rumors partem de relatórios anuais das subsidiárias sueca e luxemburguesa da Hasselblad, e o PetaPixel confirma a tendência de receita e lucro operacional entre 2020 e 2025, correlacionando o salto de 2023 ao primeiro ano completo da X2D 100C no mercado.
Os números que voltaram
Entre 2020 e 2022, a receita anual ficou entre US$ 74 milhões e US$ 85,8 milhões e o lucro operacional oscilou entre US$ 4,4 milhões e US$ 5,3 milhões. Em 2023, o primeiro ano completo da X2D 100C no mercado, o lucro operacional saltou para US$ 23,3 milhões. Em 2024 subiu para US$ 41,7 milhões e, em 2025, fechou em US$ 46,8 milhões, recorde da série analisada.
A receita acompanhou a mesma inclinação: US$ 154,8 milhões em 2023, US$ 271,7 milhões em 2024 e US$ 325,9 milhões em 2025. Só para comparar, a receita de 2025 supera a soma de 2020, 2021 e 2022 juntos. Desde 2022, a marca mais do que quadruplicou faturamento, com taxa composta anual próxima de 30,6% entre 2020 e 2025, segundo a análise do Photo Rumors.
O lucro líquido, porém, caiu cerca de 20% de 2024 para 2025: de US$ 42,5 milhões para US$ 33,9 milhões. A diferença não veio de operação pior, e sim de impostos: a tabela aponta US$ 10,8 milhões de despesa fiscal em 2025 contra cerca de US$ 154 mil em 2024. Lucro operacional subiu, margem bruta caiu e o resultado final ficou mais baixo por causa do tributo.
Margem bruta e volume
Esse detalhe importa para quem acompanha hardware fotográfico de nicho. A margem bruta caiu de cerca de 30% em 2024 para 26% em 2025, mesmo com receita US$ 54,2 milhões maior. O lucro bruto subiu só de US$ 81,4 milhões para US$ 84,7 milhões. Em outras palavras, a Hasselblad vendeu muito mais e reteve menos por dólar vendido do que nos anos anteriores à explosão de volume.
Investimento em P&D ficou estável: US$ 21,1 milhões em 2025, leve queda frente a US$ 22 milhões em 2024. Isso representa cerca de 6,5% da receita. A inferência mais prudente é que a marca priorizou escala e preço competitivo na linha X em detrimento de margem unitária mais alta, embora a empresa não detalhe política de preços nos relatórios resumidos.
De estúdio analógico a mirrorless compacta
A aposta mirrorless começou em 2016 com a X1D, primeira câmera de médio formato sem espelho da marca. Na época, o segmento era estreito e a Hasselblad carregava décadas de câmeras de estúdio com obturador de folha. Abrir mão do formato H e abraçar corpo compacto com tela traseira foi aposta arriscada, e os primeiros anos financeiros do recorte 2020-2022 ainda pareciam modestos.
Com dez anos de distância, a decisão parece acertada para a sobrevivência da marca. Fotógrafos que preferiam sensores maiores que 44 x 33 mm do sistema X podem lamentar, mas o mercado consumidor de médio formato migrou para corpos menores, lentes XCD e fluxo de trabalho parecido com mirrorless full frame. A X2D 100C consolidou essa aposta com sensor de 100 megapixels e desempenho comercial forte.
A X2D II 100C, lançada em 2025, entrou como sucessor mais barato e mais capaz: estabilização líder, autofoco refinado e suporte a HDR integrado. O PetaPixel aponta que o modelo ajudou a sustentar o lucro operacional recorde. A câmera também apareceu no topo de rankings de vendas no Japão, mercado tradicionalmente difícil para a Hasselblad.
Lentes, DJI e ecossistema
Câmeras não contam a história inteira. A Hasselblad lançou lentes XCD compactas nos últimos anos, como 28P, 25V, 20-35E e 75P, além do kit 907X e CFV 100C para quem quer digitalizar corpo V. Lentes costumam render margem maior que corpos, e o Photo Rumors cita essa linha como parte do crescimento, sem separar receita de hardware por categoria nos números públicos.
A participação majoritária da DJI desde 2017 também moldou produto e cadeia. A Hasselblad empresta nome a drones de ponta e colaborou com fabricantes de smartphone, incluindo Oppo e OnePlus. O PetaPixel descreve a relação como multifacetada: P&D compartilhado ajudou IBIS, autofoco e HDR na X2D II, mas também significa que parte da receita da marca atravessa licenciamento e parcerias fora do fotógrafo de paisagem tradicional.
Isso não invalida os resultados da linha X, mas explica por que uma empresa pequena no nicho de médio formato consegue investir em features antes vistas só em cinema. A inferência é de sinergia industrial, não de dependência total da matriz chinesa, embora os relatórios não detalhem quanto da receita de US$ 325,9 milhões veio de câmeras versus licenciamento.
O que muda para quem edita arquivos grandes
Para quem trabalha com RAW de 100 megapixels, o crescimento da Hasselblad confirma que há público pagando por resolução e latitude tonal, mesmo com full frame empilhado ficando mais rápido. Arquivos dessa classe exigem monitoramento de nitidez ao reduzir para web e cuidado ao ampliar detalhes que serão impressos grandes.
Quando preparo uma versão para portfólio online a partir de um RAW denso, eu confiro se a ampliação preserva textura em áreas planas e não inventa grão digital. Médio formato entrega margem para recorte, mas não perdoa upscaling agressivo em pele ou céu liso. A ferramenta certa evita halos que aparecem só depois de exportar JPEG.
Também separo arquivo mestre e cópia de envio. Um TIFF ou DNG de 100 MP pesa centenas de megabytes; comprimir demais para e-mail antes de guardar o original é receita para perder informação que justificou o investimento no corpo. Fluxo organizado importa tanto quanto o sensor.
Rumores e limites dos dados
Relatórios anuais resumidos não substituem auditoria completa de empresa de capital aberto. A conversão euro-dólar no Photo Rumors introduz arredondamento. Projeções de crescimento futuro citadas pelo PetaPixel vêm de expectativa da própria Hasselblad nos documentos, não de previsão independente.
Comparar com Phase One ou Fujifilm GFX exige cautela: cada marca reporta de forma diferente e o mercado de médio formato continua pequeno frente a full frame. O fato confirmado é a tendência de receita e lucro operacional; a alegação de que mirrorless salvou a Hasselblad é inferência editorial apoiada em correlacionar lançamentos X2D com salto de 2023, não prova causal isolada.
Checklist para acompanhar a pauta
1. Trate lucro operacional recorde e queda de lucro líquido como histórias distintas; imposto explica parte do ano ruim no bottom line.
2. Observe margem bruta: volume alto com margem menor sugere pressão de preço ou mix de produtos.
3. Se você edita RAW pesado, teste exportação e upscaling antes de imprimir grande.
4. Espere novas lentes XCD enquanto a receita financia P&D; patentes e rumores de corpo H mirrorless permanecem não confirmados pela marca.
Dez anos depois da X1D, os números sugerem que mirrorless não foi moda passageira para a Hasselblad, embora margem bruta mais baixa mostre que crescer rápido também custa caro.
